Educação para transformação

  • 24 de nov. de 2011
  • Mundo de Noiz
  •      Quando se vive em uma favela, vive-se uma realidade realmente diferenciada. Vive-se em um ambiente socialmente marginalizado e discriminado. Favela é “o lugar onde cedo se aprende que só à custa de muita teimosia se consegue tecer a vida com sua quase ausência ou negação – com carência, com ameaça, com desespero, com ofensa e dor”1.
         Educar para transformar seria, então, provocar as pessoas para que entendam a violência e a profunda injustiça que caracterizam sua situação real - a experiência da miséria é uma violência. De que tenham condições de descobrir-se e conquistar-se como sujeito de sua própria história. Aprender a escrever a sua vida, como autor .
    Através da educação o homem se redescobre como sujeito instaurador de sua experiência e desperta criticamente para identificar-se como personagem que se ignorava e é chamado a assumir seu papel.
         Para expressar a si e ao mundo é necessário se comunicar, ter idéias e argumentos, opinar, discutir, entender. E para se comunicar é imprescindível a palavra que, mais que instrumento, é a própria gênese da comunicação. E para o homem se expressar convenientemente precisa dominar a palavra, ter seu entendimento.
     "A palavra, porque lugar do encontro e do reconhecimento das consciências, também o é do reencontro e do reconhecimento de si mesmo”2.
         Ao se abrir as portas do mundo, através da educação que traz a palavra, e se inserir no mundo como protagonista de sua história, o homem mais crítico e consciente de si toma consciência do mundo e da realidade que o cerca. Se indigna com sua situação e busca soluções para mudar o estado das coisas.
    “Se a tomada de consciência abre o caminho à expressão das insatisfações sociais, se deve a que estas são componentes reais de uma situação de opressão”3.
          Lembrando do depoimento de uma ex-moradora de uma favela, que dizia ser a primeira universitária da família e já conseguia perceber as transformações e a diferença que o acesso à educação fizeram em sua vida: Ela revelou que, ao observar sua mãe, semi-alfabetizada, via uma mulher batalhadora, corajosa e boa mãe, mas que dificilmente conseguia expressar suas opiniões, era facilmente influenciada, mal conseguia redigir um texto com poucas frases e geralmente ficava confusa com as notícias dos telejornais – sempre concordando com a opinião emitida, afinal eles são doutores. A mãe, empregada doméstica, mesmo ciente do valor do trabalho honesto, sentia vergonha da função que desempenhava.
         Já a universitária, nutria seus sonhos, acreditava em mudanças na sua condição social e econômica, na melhoria da qualidade de vida, compreendia o peso do seu voto quando escolhia seus candidatos, procurava seus direitos quando se sentia lesada em um estabelecimento, ia ao teatro, lia livros, discutia idéias e ideais... Atos tão simples, mas um "bicho de sete cabeças" para sua mãe...
    Referências
    Freire, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1970. (1,2,3)

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