É som de preto, de favelado

  • 27 de jun. de 2011
  • Mundo de Noiz

  •      Foto: Humberto DJ

    É som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado...

    O funk brasileiro, como é notório, teve sua gênese nas favelas do Rio de Janeiro. E eu pude vivenciar essa criação e ouso, aqui, comentar não com a propriedade de um historiador ou pesquisador, mas com um olhar diferenciado pela praxis.
    Através de conversas com “os da antiga” ou “da velha-guarda” nas favelas vieram as primeiras informações de que o samba também já teve seu período de repúdio social e artístico - por ser de origem plebeia - sendo considerado “coisa de malandro” e tendo seus representantes constantemente reprimidos pela polícia. Informações que, mais tarde, passaram a ter maiores significados através de textos de Nei Lopes e Hermano Vianna (entre outros).
    (...)a transformação do samba em música nacional não foi um acontecimento repentino, indo da repressão à louvação em menos de uma década, mas sim o coroamento de uma tradição secular de contatos(...) entre vários grupos sociais na tentativa de inventar a identidade e a cultura popular brasileiras. (VIANNA, 1995)
    O funk do início da década de 1980 seguia um modelo americano, e se misturava com o soul e outros estilos da “black music”. Pode, à primeira vista, parecer que se tratava de uma tendência à valorização da música internacional em contraponto à nacional. Na verdade, os jovens tem o anseio e a necessidade de buscar coisas novas, e nas favelas não é diferente. A tendência à contracultura é bem própria da juventude, que vê nesse movimento alternativas, novidades e mesmo um exercício de liberdade.
    Curtíamos o samba, o balanço de Tim Maia e Bebeto... sim, mas era essa busca do novo que nos movia a experimentar aqueles ritmos alucinantes. Aliado a isso, havia a identidade reconhecida nos artistas pretos e mestiços, como nós. E nessa busca por uma identidade, mesmo que inconsciente, escolhíamos nossos representantes (até mesmo com certa ingenuidade), sem análises críticas sobre a “americanização”, mas simplesmente para dançar, orgânico.
    Não havia, nas favelas, um pensamento ou anseio que fosse além do que já era. O próprio sistema da época (educacional, social...) nos rejeitava, isolava e controlava. O que era da favela, na favela ficava – desde que não causasse incômodo “além dos muros” que a cercavam.
    E assim foi indo... até o formato do funk, no final dos anos 80, ser totalmente recriado, mostrando uma personalidade tipicamente brasileira. Surgiram algumas misturas de funk e musica eletronica com Steve B e Corell, e algumas montagens. Daí até os primeiros “funk melodies” foi quase instantâneo, e os festivais de rap nas comunidades...aí todo mundo já sabe no que deu.
    O funk no seu auge, em meados de 90, alcançou a classe média graças a aceitação que teve por artistas de grande influência como Xuxa, Lulu Santos e tantos outros. Foi um salto inesperado para os garotos que há pouco vendiam chicletes nos sinais ou ralavam como serventes de obras. Os bailes ganharam força e os grupos de funkeiros se agregavam e organizavam. Os Mcs começavam a conviver com pessoas influentes e politizadas, formadores de opinião. O olhar para os Mcs despertou o olhar para as favelas. Pronto, o “fervo” começou.
    A partir da década de 1990 pude notar um maior envolvimento dos moradores das favelas na tentativa de intervir de alguma forma que transformasse a realidade da comunidade, de buscar espaços para se expressarem. Isso se deve, ao menos em parte, a desvelação da favela frente a atuação dos funkeiros. O que era notado no carnaval passou a ser exposto diariamente. A favela estava na mídia.

    Publicado originalmente no Overmundo

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