O Racismo Tem Muitas Faces

  • 13 de fev. de 2009
  • Mundo de Noiz
  • O Racismo Tem Muitas Faces
        
      Esta semana tive o desprazer de, numa das minhas “rodadas” no Google, encontrar um forum (grupo de discussões) debatendo o racismo. Digo desprazer pelas argumentações, expressas por alguns dos participantes, acerca da justificação biológica para o racismo – por sinal, sem a mínima base argumentativa plausível, coisa bem própria de quem “ouviu falar”.
           Graças a DEUS, as opiniões não eram unânimes!
    Dizia-se então:
    Comentário 1
    - “as diferenças biológicas existentes entre as pessoas, de acordo com a cor de sua pele, eram incontestáveis e que isso justificaria  a separação dos seres humanos em raças”.
           E eu aqui imaginando um grupo de pessoas, reunidas, e alguém se levantando para dizer:      
    - Cala a boca IMBECIL!
    Comentário 2 
           Segundo um dos participantes mais distintos e sábios:
    -“Há diferenças entre negros e brancos? Há, claro! Não apenas de cor, mas físicas, metabólicas, e um monte de outras diferenças”.
           Eu pensei alto - Cala a boca imbecil! Mas depois me arrependi e comecei a refletir: será que tenho que voltar aos bancos universitários... Buscar atualização... Os conceitos mudaram?
           Metabolismo diferente é um bom argumento, não? Diferenças? - Claro! Sou diferente do meu irmão. As respostas biológicas do meu irmão, as minhas, dos meus filhos... não são iguais. Logo, pela brilhante premissa do imbecil supracitado, somos de raças diferentes... EXTRAORDINÁRIO! Nunca havia pensado nisso antes.  Somos, então, milhões de raças no mundo. FANTÁSTICO!
           E pensando no argumento mais forte que o sábio participante usou - “e um monte de outras coisas” – divaguei. Simplesmente extraordinário, é o máximo. Fruto de uma sabedoria inigualável. Talvez ninguém tenha parado para pensar sobre tal realidade (tão sintética e verdadeira): “um monte de outras coisas”.
    É o tipo de frase que impressiona qualquer um. Quem na vida nunca pensou no dia em que teria a oportunidade de dizer “e um monte de outras coisas“. Uma oração preenchida do mais erudito conteúdo, do mais rico significado.
           Após um breve intervalo de devaneios, voltei de Pasárgada. Foi quando deparei com outro depoimento abjeto.
    Comentário 3
    “É biológico, então nada mais natural que passe a fazer parte da cultura também (diga-se de passagem, de todas sem exceção). O branco é associado ao dia (representando o bem) e o preto à noite (representando o mal) por um motivo simples, nós como criaturas diurnas nos sentimos mais seguros e confortáveis durante o dia, sendo que a noite nos causa um sentimento de medo e insegurança. Prova que eu estou errado e me apresente alguma cultura, de qualquer tempo, onde essa associação de branco como bem e preto como mal é inversa”.

    Eu até acredito em memória genética, mas é uma coisa tão diferente disso que me dá vontade de gritar para o cretino – Cala a boca imbecil!
    Talvez coubesse memória racial (Jung). Atirou no que viu e acertou no que não viu.
    Já volto ao tema!

    Agora vou me dar o trabalho de explicar minha indignação e repugnância a tais comentários desqualificados e insanos.
    Obs: Serei bem sintético, não precisa mudar de página.

    Ah, esqueci de dizer que o nome do forum é “Papo Cabeça” (só para constar).

    Assertiva 1 – Da origem do homem

    A teoria evolutiva mais aceita indica a África como o berço da humanidade e que da transição evolutiva do Homo erectus, surgiu o Homo sapiens, (há cerca de 200 mil anos). Há também outras teorias que descartam tal transição, mas que corroboram a origem africana do H. sapiens.

    Assertiva 2 – Das diferenças entre os homens

    Assim como acontece com todos os seres vivos, os homens também são diferentes entre si.
    Desde os primórdios da civilização o homem notou ser muito mais vantajoso e seguro viver em grupos. E até hoje é assim. O homem se organiza em grupos que são verdadeiras tribos, como no início. Organiza-se por  crenças religiosas, condição sócioeconômica, cultural...
    Biologicamente falando, imagine como era no início: um grupo de H. sapiens indo para o norte, outro para o sul;  um grupo num ambiente quente, outro no gelo; um grupo em planícies e outro em montanhas.
    Tem muita diferença, não? E assim começa o confinamento genético. Os grupos, isolados, por si só já representavam um grande obstáculo à variação genética. E, de acordo com cada tipo de ambiente (amo Darwin por isso) um tipo determinado tinha mais sucesso adaptativo que outros. Assim começa uma história que não vou contar...
    ...Então pretos, brancos, amarelos e vermelhos são diferentes por estarem em locais diferentes, com ambientes diferentes...

    Assertiva 3 – Do metabolismo e características biológicas

    Os negros apresentam maior incidência de anemia falciforme (hemácias em forma de foice).
    Lógico, vivendo em uma região endêmica de malária (Africa), seguindo o raciocínio de Darwin (obrigado mais uma vez), os mais aptos àquele ambiente... (ainda lembra).
    De tal forma, quem tinha hemácias falciformes tinha vantagem em relação a quem não tinha, uma vez que o protozoario causador da doença (Plasmodium sp) não se reproduz na hemácia falciforme.

    Daí, levando-se em conta a assertiva 2 e o fato de que cada individuo é único (em qualquer espécie viva), observemos somente as similaridades grupais. Sim, é claro. Há similaridades grupais. Afinal, o grupo não estava no mesmo lugar, no mesmo tempo, sofrendo as mesmas pressões, fazendo parte do mesmo confinamento genético? Nada mais natural que haja similaridades. Já reparou as características de um japonês, de um italiano, de um árabe. São características grupais, que graças ao mundo moderno com sua globalizaçao e maior interação entre os povos tendem, gradativamente, a serem minimizadas. Não daqui a dez anos, mas a passos biológicos. 

    Assertiva 4 - Ah, a memória racial de Jung.

           Em Biologia, a memória genética representa a história gravada das mudanças adaptativas em uma espécie. A seleção de organismos que possuem códigos genéticos para a produção de proteínas melhor adaptadas resulta na evolução das espécies.  Podem-se citar as respostas imunes inatas como exemplo.
           Já para a Psicologia a memória genética é uma memória presente desde o nascimento que existe em ausência de experiência sensorial. É a ideia de que experiências comuns de uma espécie acabam incorporadas em seu código genético como uma predisposição a responder de certo modo a certos estímulos. Esta teoria é usada na explicação da memória racial postulada por Carl Jung, que postula:
    memória racial é um hipotético tipo de memória que não é adquirida através da experiência ou o condicionamento, mas é herdada geneticamente, como parte de um "inconsciente coletivo" da espécie humana.... memória racial não define a memória na medida em que há uma lembrança de um evento específico, em vez disso ele faz referência a uma lembrança genética inerente às experiências da linha ancestral ...
           Ah, sim, não esquecendo também – como preceitua Jung – que trata-se de uma  lembrança genética inerente às experiências da linha ancestral ... Ou seja: o comentarista é racista e teve essa “memória racial” porque seu pai era racista, seu avô, seu bisavô...todos seus antepassados eram racistas. Bem fácil de entender, não?!
           Quando se herda uma cultura racista, mesmo que velada, torna-se difícil se desprender desses conceitos (preconceitos) aprendidos. É preciso ter coragem e discernimento para repensar, refletir, mudar a história.

    Não querendo fazer publicidade , mas para constatação:
    http://www.adrenaline.com.br/forum/papo-cabeca/192232-teste-sobre-racismo-realizado-com-criancas-3.html#ixzz1AmIpmDaw

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